Guerra na Ucrânia e seus desdobramentos

Bruno Segatto

Por:

Bruno Segatto

Contrariando os prognósticos da maioria dos especialistas, Vladimir Putin ordenou a invasão do território ucraniano em fevereiro. As justificativas apontadas pelo chefe do Kremlin foram proteger as populações de origem russa na região de Donbass (Donetsk e Luhansk), desnazificar a Ucrânia e assegurar que o país não venha a fazer parte da OTAN,o que seria considerado uma ameaça à segurança russa. 

As operações militares haviam começado com exercícios militares em Belarus, país governado pelo aliado de Putin, Alexander Lukashenko. Finalizados os treinamentos, Putin reconheceu a independência das regiões de Donetsk e Luhansk e deslocou efetivos militares para aquelas regiões no intuito de assegurar a sua autonomia frente ao governo ucraniano. Uma vez ocupadas as regiões de Donbass, as tropas russas avançaram em direção ao interior do território ucraniano a partir de três frentes. 

Uma coluna de soldados partiu da Rússia em direção à cidade de Kharkiv, próxima da fronteira. Outra coluna de soldados, vinda do Norte, ocupou Chernobyl e avançou sobre a capital Kiev. Por fim, um ataque oriundo da Criméia (incorporada à Rússia por Putin em 2014) avançou sobre as cidades do Sul com o objetivo de ocupar as cidades portuárias de Mariupol, Kherson e Odessa. No dia 12 de fevereiro, a Rússia estendeu seus ataques sobre a cidade de Lviv, próxima da Polônia. O ataque a uma base militar que funcionava na cidade despertou os temores de um novo conflito mundial, uma vez que a Polônia faz parte da OTAN, que até o momento não se envolveu de forma direta na contenda. 

A guerra dura duas semanas e já atingiu a cifra dos milhares em mortos e dos 2 milhões em ucranianos refugiados – a maioria na vizinha Polônia. Além disso, o conflito já trouxe consideráveis consequências econômicas para o mundo inteiro. A economia da Rússia foi duramente afetada pelas inúmeras sanções econômicas impostas ao país. A moeda russa, o rublo, se desvalorizou 30% de um dia para o outro e a bolsa de valores de Moscou despencou. O preço do barril de petróleo subiu e isso se refletiu em um considerável aumento do preço dos combustíveis no Brasil dias depois. O preço dos fertilizantes também sofreu um aumento, uma vez que Rússia e Belarus estão entre os três maiores produtores mundiais.

Poucos dias antes da escalada da violência na região, o presidente Jair Bolsonaro viajou a Moscou e se encontrou com Putin. Dentre os assuntos debatidos estava a questão dos fertilizantes. Bolsonaro buscou garantias de que o fornecimento de fertilizantes ao Brasil seria mantido, uma vez que o país é altamente dependente dos insumos agrícolas. Uma eventual escassez de nitrato de amônio, cloreto de potássio e ureia seria devastador para o agronegócio brasileiro.

O conflito também gerou desdobramentos relevantes no mundo da política internacional. O governo da Alemanha anunciou que irá se remilitarizar em função do cenário instável do Leste europeu. A última vez que isso havia acontecido foi durante o III Reich, sob a gestão de Adolf Hitler. Outro país que chamou a atenção do mundo foi a Suíça, que rompeu sua neutralidade histórica ao condenar a invasão russa e impor restrições aos recursos russos em seus bancos. Por fim, o governo dos Estados Unidos se reaproximou da Venezuela, sua tradicional rival nas Américas. O interesse de Washington é conseguir novos fornecedores de petróleo para superar a dependência do óleo russo.

Percebe-se que a guerra bagunçou – e muito! – o tabuleiro geopolítico e a economia globalizada. Como as rodadas de negociação entre Kiev e Moscou fracassaram, a tendência é de que o conflito continue e que haja uma escalada da violência na medida em que os russos avancem sobre a capital Kiev. Ainda que Putin consiga depor o presidente ucraniano Volodimir Zelenski, terá diante de si a difícil tarefa de reerguer a economia russa em meio a sanções econômicas. Infelizmente, como em toda guerra, será a população civil ucraniana a sofrer as piores consequências do conflito.

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