OAB 1° e 2° fase

A contribuição da comunidade africana para a língua portuguesa no Brasil

A contribuição da comunidade africana para a língua portuguesa no Brasil é enorme. Descubra mais sobre essa importante história.

Última atualização em 19/02/2024
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Nesta semana, dia 20 de novembro, foi comemorado o Dia da Consciência Negra, data que é simbólica para marcar a desigualdade racial no Brasil e processo histórico de discriminação contra negros. É também tempo para reconhecermos a relevância da cultura africana para o que hoje chamamos de cultura brasileira, o que inclui o nosso idioma.

Nossa língua portuguesa é derivada do latim vulgar, usado pelos plebeus. Mas não é só do latim que se compõe nosso idioma. Além da contribuição das línguas indígenas, que influenciaram em uso de vocábulos da nossa flora e fauna, como abacaxi, aipim, açaí, pitanga, pipoca, Tupanciretã, Maracanã, há também o papel das línguas dos negros africanos que foram escravizados aqui entre os séculos XVI e XIX. Chegaram aqui mais de quatro milhões de africanos originários de duas regiões da África subsaariana – banto e oeste-africana (também chamada “sudanesa”).

Quanto chegaram ao Brasil, os negros escravizados – sim, usa-se a expressão escravizados, porque essa condição foi imposta a eles e não uma condição inata aos povos que passaram a (sobre)viver aqui e situações degradantes – comunicavam-se em vários dialetos da África, entre os quais dialetos existentes pela África, o quimbundo, o quicongo e o umbundo.

Identidade e marcas linguísticas

Esses dialetos mostram que os negros africanos tinham identidade e marcas linguísticas que permaneceram vivas, apesar da opressão imposta a eles e que sua forma de falar influenciou sobremaneira a língua popular oral usada aqui, o que também contribuiu para o distanciamento em entre a língua portuguesa falada no Brasil e a falada em Portugal.

Conforme a pesquisadora baiana Yeda Pessoa de Castro, autora do livro Marcas de africania no Português brasileiro:

Se as vozes dos quatro milhões de negro-africanos que foram trasladados para o Brasil ao longo de mais de três séculos consecutivos não tivessem sido abafadas em nossa história, por descaso ou preconceito acadêmico, hoje saberíamos que eles, apesar de escravizados, não ficaram mudos, falavam línguas articuladamente humanas e participaram da configuração do português brasileiro não somente com palavras que foram ditas a esmo e ‘aceitas como empréstimos pelo português’, na concepção vigente, mas também nas diferenças que afastaram o português do Brasil do de Portugal. (CASTRO, 2016, p. 1)

Palavras de origem africana enraizadas na língua portuguesa:

caçamba, cachaça, cachimbo, caçula, candango, canga, capanga, carimbo, caxumba, cochilar, corcunda, dengo, fubá, gibi, macaco, maconha, macumba, marimbondo, miçanga, moleque, quitanda, quitute, tanga, xingar, banguela, babaca, bunda, cafofo, cafundó, cambada, muquirana, muvuca.

Além de palavras como essas, a influência da línguas africanas na língua portuguesa do Brasil também se dá no campo da sintaxe. Na costa ocidental da África – Cabo Verde, Guiné Bissau, São Thomé e Príncipe –, as línguas não apresentam, em geral, a flexão verbal e a concordância nominal. Assim, é comum haver “os menino”, “um ambulância”. Outras influências são marcadas em fonemas. Segundo Mendonça (2012), “O negro influenciou sensivelmente a nossa língua popular. Um contato prolongado de duas línguas sempre produz em ambas fenômenos de osmose.” (p. 80). Exemplo dado pelo pesquisador:

  • O fonema linguopalatal lh muda-se na semivogal y:

“Dizem que a muyé é farsa

Tão farsa como papé,

Mas quem matou Jesus Cristo

Foi home, não foi muyé”.

(Quadra popular do sul de Goiás).

  • A queda no r final aparece também nos dialetos crioulos da África: cabo-verdiano — onde às vezes cai:

chegar.... chegá da ilha de S. Tomé — onde às vezes cai:

cuié em vez de colher, ou se troca em l arc irmonlimò, ou recebe i de apoio:

flor ......... flori da ilha do Príncipe — cai:

vender .................... vende

  • Há também redução de ditongos:

Os ditongos ei e ou, por influência africana, reduziram-se na língua popular do Brasil:

ei ............... ê cheiro........ chêro

peixe ......... pêxe

beijo .......... bêjo

Logo, algumas “desobediências” à gramática normativa da língua portuguesa são traços que podem, em tese, ser resultados do contato intercultural entre colonizadores europeus e escravizados africanos.

Essas desobediências – deve-se esclarecer – são assim tratadas porque as normas do bem falar e bem escrever da língua portuguesa são baseadas no uso da língua portuguesa na Europa e em textos literário clássicos, o que, sabemos, não ilustra o modo como nos expressamos hoje no Brasil.

Gostou dessas informações? Conhecer mais sobre a nossa língua é forma de valorizar nosso passado cultural e compreender que a língua é mutável e as regras, também.

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